Se o decoro e a decência repousam na placidez dos quotidianos e tributáveis, se a moral e o recato habitam na aquiescência das massas planas e rasas e se o pensamento crítico é a súmula pornográfica dos nossos dias; então meu nome é pecado, porque prefiro o sórdido, o indizível e o obsceno a ter de ceifar-me da dignidade do pensamento adverso, da contrariedade de minha própria opinião. Por isso sou Obscenum.
Sem tempo para maiores delongas, começou terça-feira o 4º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Maiores informações, clique aqui. Todas as sessões são gratuitas. -- Mais uma vez, verei muito menos do que gostaria. Mas uma casualidade interessante aconteceu. Pelo segundo ano consecutivo o primeiro filme que vejo no festival é de um diretor com sobrenome Cuarón. Ano passado foi o filme Ano Unha, de Jonas Cuarón (clique aqui para saber mais), um filme que me conquistou pela simplicidade, ousadia e ótima montagem. Dessa vez foi o filme Rude e Brega, de Carlos Cuarón. Carlos é irmão de Alfonso Cuarón, que é pai de Jonas Cuarón. Alfonso é o nome mais internacional da família de cineastas, tendo dirigido um dos filmes da franquia Harry Potter (o Prisioneiro de Azkaban) e premiadíssimo pelo filme E Tua Mãe Também. O filme de seu irmão que está no festival é bastante divertido e triste também, uma metáfora do futebol com a vida e que tem no elenco o completíssimo Gael Garcia Bernal e o ótimo Diego Luna.
Voltando ao mais famoso da família, Alfonso Cuarón faz parte do trio de diretores mexicanos que surpreenderam a crítica nos últimos anos com filmes que impunham um estilo muito peculiar de direção e de ambientação. Juntam-se a Alfondo o diretor Guilhermo Del Toro (do visualmente impressionante O Labirinto do Fauno e do muito bem conduzido Hellboy) e o diretor Alejandro González Iñárritu (do também impressionante 21 Gramas e o impactante Amores Brutos).
Hoje corri minha primeira prova. Oficialmente agora me considero batizado e posso dizer que sou um atleta amador (beeeemmm amador, a se levar em conta meu tempo de corrida, mas isso o tempo e os treinos se encarregarão de dirimir). O incrível é que se eu tivesse planejado tantos elementos para tornar especial esta minha estréia no mundo das competições amadoras não teria dado tão certo.
A prova foi a Super 9Km no Autódromo de Interlagos. Sim, agora posso dizer por aí que já corri em Interlagos... ao menos a pé. Quem me conhece sabe o quanto sou incondicionalmente apaixonado pela F1. Portanto, mais que a emoção da primeira prova, conta o fato de ter sido num dos circuitos do calendário oficial da categoria máxima do automobilismo.
Fazer aquelas curvas, percorrer aquele circuito que de tanto já tê-lo percorrido (em jogos de computador) sou até capaz de desenhá-lo de memória, teve um sabor inesquecível. Mais ainda. Foi uma corrida em comemoração ao 9 de julho, data que relembra a revolução paulista de 1932, a Revolução Constitucionalista. Cumpro assim meu dever de cidadão paulista em celebrar uma data tão importante para meu estado. Para ficar mais inesquecível estou retornando de lesão, pela qual fiquei um mês sem treinar e achei meu desempenho ótimo, uma vez que só agora retomo o ritmo de treino.
Por estar sem ritmo de treino, optei pelo circuito mais curto, de 4,5km, em vez dos 9km. Completei-o em 28:54, com média de 9,34km/h ou 6:25 min/km. Cheguei inteiro e com fôlego sobrando e não fui vencido por nenhuma das longas subidas do circuito. Fiquei satisfeito, mas preciso melhorar esse tempo em pelo menos 8 min.
Contudo e por fim, posso dizer que venci. Venci 15kg já perdidos em 5 meses de mudança de vida, venci a lesão medial-tibial por estresse e sigo na luta por sanar totalmente minha lesão recorrente no ligamento patelo-femoral. Por isso sigo correndo. -- Atualização - 14:51
Resultado oficial: 4,5km Masculino Geral: 187º (de 400)
Está no ar minha coluna de cinema desse mês no Guia da Semana. Dessa vez, falo da maratona de festivais de cinema que se iniciam no segundo sementre. Trecho:
"O SP Terror - 1º Festival Internacional de Cinema Fantástico, ocorreu entre 25 de junho e 2 de julho (se perdeu, ano que vem tem mais). Em seguida, emendamos com o 4º Festival de Cinema Latino-Americano, de 6 a 12 de julho. Ainda este mês, entre os dias 22 e 26, será realizado o Anima Mundi - 17º Festival Internacional de Animação. Menos de um mês depois, ocorre o 20º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, de 20 a 28 de agosto. Por fim, a cereja do bolo, de 23 de outubro a 5 de novembro, a balzaquiana e monumental 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo." Para ler na íntegra, clique aqui.
Um blog muito antigo que eu lia chamava-se Eu Odeio Galvão Bueno. Eu também odeio. E participo do movimento "Cala a boca Galvão", porque também estou no limite extremo da paciência. Abaixo, algus fatos:
Galvão Bueno comenta até minuto de silêncio.
Deus criou o mundo em seis dias. No sétimo, foi interrompido por Galvão Bueno.
Quando Adão foi criado, ele estendeu uma faixa no paraíso: "Filma Eu, Galvão".
Galvão Bueno nunca tem deja vu. Só tira-teima.
Van Gogh cortou as orelhas para não ouvir Galvão Bueno.
Bin Laden só grava os seus próprios vídeos porque Galvão Bueno não atende a seus pedidos de "Filma Eu".
Quando o terceiro segredo de Fátima for revelado, Galvão Bueno gritará: Eu Sabia! Eu sabia!
Gosto de meu mau humor e de minha tristeza. Sem muito tempo para escrever, reponho abaixo dois bons exemplares de cada um, publicados e passado remoto:
Breve recesso. Porra vida chata do caralho!! Vi Os Infiltrados. Puta filme bom. Volto semana que vem se essa merda de humor melhorar. O filho da puta do Blogger enfiou meu arquivo de posts no cu. Ultimamente, até respirar me irrita. Tem coisa que é tão simples, mas a vida sempre fode. E você? O que veio fazer aqui? Queria comer a Luana Piovanni, queria escrever como a Clarice Lispector, queria ter um Astra 2.0, queria tocar fogo no congresso, queria deixar meu cabelo crescer, montar um exército e invadir a Argentina. O que eu queria mesmo era abolir os espelhos. -- Coruscante! Pode haver palavra mais bonita do que coruscante?! Coruscante, como num verso que li há tempos, um verso de Hilda Hilst Coruscante como quero a vida e que não é coruscante como a quero nunca
Coruscante o dia de depois de sempre Coruscante os olhos da menina linda que não vejo ontem Coruscante o riso da mulher desejada que nada deseja Coruscante a alma dos poetas enviesados pelo amanhã Coruscante sempre o que tenho de negar dentro de mim
Mas nada corusca mais que o não coruscar de mim mesmo Esse afago introspectivo pendente, esse afogo desmedido de repente Essa aflição de palavras mórulas, como uma poeta "alcoólicas" morta venerável - como só os poetas mortos podem ser realmente veneráveis - também me ensinou
E sei que nada realmente corusca dentro do que me apercebo em torno Sei que meu fado não-coruscante é a eterna revelia de ser-se sempre o negrume insólito do eterno prelúdio das vontades e sonhos sonhados no interior de vulcões desassossegados e vultosos
O prelúdio perene, o prólogo monolítico aviltante (avilta-se a alma em desafogo infame ridículo) a epifania debochada do que se é (inevitavelmente, claro) e o resultado de tudo que só cabe no epitáfio de versos insalubres e mesquinhos.
Novo emprego, adaptando-se a horários e rotinas novas, mil textos na cabeça para escrever, tudo a seu tempo. Peço paciência.
Aproveito e já adianto o tema de minha próxima coluna no Guia da Semana, que deve sair semana que vem:
"Em seu primeiro ano temos já em andamento o SP Terror – 1º Festival Internacional de Cinema Fantástico, que acontece de 25 de junho a 02 de julho. Em seguida, emendamos como 4º Festival de Cinema Latino-Americano, de 06 a 12 de julho. Ainda em julho, do dia 22 ao dia 26, tem o Anima Mundi – 17º Festival Internacional de Animação. Menos de um mês depois acontece o 20º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, de 20 a 28 de agosto. Por fim, a cereja do bolo, de 23 de outubro a 05 de novembro, a balzaquiana e monumental 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo."
Rafael Galvão, quando não fica pesando de petsita empedernido, defendendo o beócio do Lula, até que acerta. Nesses muitos anos que o leio já ri à sopapa com seus textos, e não foi diferente com esse. Nele, Rafael conta do brilhantismo de espírito que teve para sair de uma situação embraçosa. Vejam um trecho:
"A gente tem vergonha de umas coisas bobas na vida, que à medida que o tempo passa vão ficando mais ridículas. Isso de sair de um restaurante porque não pode pagar, por exemplo. Se eu fosse rico, não ligaria de olhar os preços, torcer o lábio e me levantar fazendo cara de nojinho, e ainda dizer no mais esnobe sotaque inglês “Oh, dear, it’s improperly expensive, and it’s not worth it!”. Mas para mim, que aprendi com minha mãezinha que a gente era pobre mas era limpinho, é uma coisa meio vexatória esse negócio de levantar de uma mesa depois de ver os preços. É uma confissão meio humilhante. Dá vergonha. Se eu pelo menos tivesse saído antes de abrir o cardápio.
Mas não era só isso que me mortificava. Imagem de brasileiro lá fora já é tão ruim, meu Deus. Pior em Londres, lugar onde a polícia gosta de matar brasileiro no metrô. E lá ia eu avacalhar ainda mais a impressão que as pessoas têm do meu cantinho. A partir daquele dia, a moça que nos recebeu à porta, quando entrasse mais um brasileiro, diria baixinho para as suas colegas: 'Olha, lá vem mais um brasileiro que não pode pagar uma pizza. Vai lá atender esse povo, Elizabeth'." Na íntegra, aqui.
No Comtatos, já está postada a ótima matéria da Nathy e do Júnior, que no domingo passado tiveram o privilégio de assistirem como convidados a gravação do programa JazzMasters da rádio Eldorado. Com direito a podcast com trilha sonora para a leitura, a matéira está imperdível. Para ler, clique aqui.
Já que o testmunho das superações está entre as coisas mais estimulantes no universo dos corredores de rua, o Rodolfo Lucena, editor de informática do jornal Folha de São Paulo, que é também maratonista e mantém um blog sobre corrida (+ Corrida), reproduz um belo relato de um corredor que em 2008 atravessou com determinação ímpar e que o Lucena muitíssimo bem intitulou de Mil Quilômetros de Solidão. Leiam aqui.
Semana recorde: três textos meus publicados em três sites diferentes. Além dos já conhecidos por aqui Guia da Semana e Comtatos, dessa vez também o blog sobre corrida Projeto Minuto, do educador físico Érico Bronislawski, de Videira, Santa Catarina. Com gentis palavras, ele reproduz um texto meu, no qual dou meu testemunho de como a corrida passou a fazer parte de minha rotina e de como ela trouxe mudanças definitivas na minha vida. Érico, como eu e outros corredores, é mais um arregimentado na batalha contra o monstro do sedentarismo-pernicioso-adiposo-desprezível-entupidor-de-artérias. Para conhecer o Projet Minuto, clique aqui. E fico grato pela gentileza do Érico e suas laudatórias palavras no que tange a este humilde e obsceno blog.
Também já está no ar minha coluna de cinema desse mês no Guia da Semana, na qual falo sobre os musicais e o preconceito contra eles. Para ler, clique aqui.
Sem muita paciência para escrever, mesmo tendo um rosário de mau-humor para desfiar, que vai desde a transmissão esdrúxula da Maratona de São Paulo pela Rede Globo, até a comparação de tabelas nutricionais de produtos idênticos com preços 800% díspares, passando pela cobertura ridícula e desinformativa que a imprensa em geral está fazendo sobre o desaparecimento do vôo da Air France. Sendo assim, o jeito é regurgitar velhos posts até a preguiça passar.
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Publicado originalmente em 04/12/2007
O escritor Joe Queenan afirmou certa vez, em artigo no New York Times, que encontrara um meio muito eficiente de escolher suas leituras e separar o joio do trigo no super concorrido mercado editorial norte-americano. Disse ele que só comprava livros que algum resenhista tivesse classificado com o adjetivo “assombroso”. Justifica-se: Are there ever times when I worry that my obsession with the word “astonishing” prevents me from buying a great book? Sure. But, the truth is, if nobody describes a book as astonishing, it probably isn’t astonishing, and if it isn’t astonishing, who needs it?
Lógico que o texto não passa de uma ironia com aquelas frases de efeito que muitas vezes vêm estampadas nas capas e contra-capas de livros.
Lembrei-me disso porque acabei de ler Crónica de Una Muerte Anunciada, de Gabriel García Márquez. Um livro assombroso.
Assombrou-me neste livro sua incrível trama documentária, ainda que ficcional, e a forma como os entrelaces dos fatos colocados pelo narrador vão se convergindo para um desfecho conhecido desde a primeira página do livro, e que justamente por isso guarda em torno de si uma aura de mistério profético, onde não importa o que, mas exatamente como.
O domínio da narrativa que García Márquez demonstra nesse livro me assombrou por sua perfeita sincronia dos fatos, pelo tratamento realístico de um acontecimento, que de tão cheio de coincidências e desencontros não poderia ser mais real ou surreal, na mesma medida.
Assombrei-me por causar-me tanta ansiedade a chegada de um desfecho já anunciado desde a abertura do livro: El día em que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana para esperar el buque en que llegaba el obispo.
E assombrou-me, mais uma vez, mesmo que em menor escala comparado a Cem Anos de Solidão, a força de personagens como Ángela Vicario, Bayardo San Román, os gêmeos Vicario e Santiago Nasar; que mesmo fazendo parte de um relato breve, passado todo ele em menos de 24 horas, conseguem expressar uma perspectiva furtiva de humanidade densa e intrincada, onde até o mais superficial ganha contornos de profundidade complexa.
Sei que muitos amigos gostam e se fazem presentes no universo do Twitter e alguns até insistem para que me envolva com isso. Resisto. Ou melhor, recuso-me solenemente. Não acredito muito em relevância com menos de 140 caracteres. Por outro lado nunca li o twitter de ninguém e posso estar sendo injusto. Talvez eu seja apenas Old School, refratário a novidades. Mantenho um blog há 6 anos com um total de 1.435 posts até hoje e uma média de 3.000 caracteres por post. Um limite de 140 caracteres me parece tão agonizante quanto uma camisinha apertada.
Claro que para dar uma dica de site, de acontecimento ou fazer divulgação de algo, 140 caracteres dão conta. Mas para o resto, será?
Na verdade, o que me incomoda mesmo não é a estrutura do twitter, afinal cada um que escreva com quantos caracteres achar melhor e viva feliz que ninguém tem nada que ver com isso. O que me irrita mesmo é o que, inspirado pelo Rafael Galvão, vou chamar de efeito mariposa. Disse o Rafael Galvão:
“...quantas bobaginhas anunciadas como revoluções eu já vi passar apenas nos últimos dois ou três anos: del.icio.us, Digg, Tumblr — e as pessoas voam de um para o outro como mariposas encantadas por uma luz mais forte, uma luz que mais cedo ou mais tarde se apagará e será substituída por outra.”
Nunca achei graça em surf (na verdade acho a coisa mais chata como esporte e a coisa mais imbecil como estilo de vida), por isso nunca fui chegado em ir na onda. E o twitter, ao menos por enquanto, é só uma onda. Tem que ver se vai durar.
Prefiro ir na onda, opa, quero dizer, na rede, do Rafael Galvão que arremata:
“...em quase 15 anos de internet, eu já devo ter assistido — às vezes de camarote — a várias dessas revoluções: homepages, IRC, MSN, blogs — sem falar nas tantas anunciadas e nunca acontecidas. É revolução demais para uma vida só — principalmente para um baiano que, por índole e por talento, gosta de ver revoluções deitado numa rede e achando graça da ligeireza das pessoas. Ninguém precisa de tanta revolução.”
Em todas as atividades nas quais começamos devagar e vamos crescendo (não estou falando de sexo, nem de ereção, ok?), melhorando e principalmente quando não podemos contar com orientação profissional para o refinamento de nosso desempenho, o que conta muito é a troca de experiências. Ler relatos, testemunhos (irônicos como esse aqui, ou não), sempre ajuda a entender nós mesmos e descobrir que existem outras pessoas tão ou mais teimosas na loucura quanto a gente.
Em seu blog na Revista Runner’s World Brasil, Sérgio Xavier Filho relata algo um tanto parecido com o que provei no último sábado, ainda que em proporções bem menores, mas com prazer e satisfação idênticos. Afinal, quando estamos com alguém que amamos, sempre queremos partilhar aquilo que também amamos ou estamos aprendendo a amar. E quando isso acontece e se mostra reciprocamente prazeroso, sabe-se ou sente-se, nalgum canto de nossa alma, que estamos partilhando com a pessoa certa não apenas aquele momento, mas também algo maior, tão grande quanto a vida.
Do que estou falando, leiam no blog do Sérgio, clicando aqui.
Sou uma pessoa nostálgica, mas sem melancolia. Quero dizer, tenho ligação afetiva com minhas memórias juvenis, mas não as transformo em lamento ou saudosismo rançoso. Tampouco tenho a inútil e obtusa ilusão de que o passado foi melhor que o presente. No balanço geral é tudo a mesma merda.
Contudo, é inegável o tom onírico que certas lembranças guardam em si e a forma como nos marcam por mais tolas e triviais que sejam. E quando por algum artifício do presente temos a chance de revivê-las, então ganham um contorno e um sabor impossível de descrever.
Quando eu tinha entre 7 e 8 anos, um dos meus padrinhos (não sei padrinho de quê, pois dessas nomenclaturas católicas pouco ou nada entendo, felizmente) morava num quartinho nos fundos da casa de minha avó paterna, na rua de trás da rua onde moro até hoje.
Naquele quartinho apertado ele guardava suas coisas, objetos que na minha memória constituem um panteão de formas e cheiros: a Caloi 10 amarela com aquelas alavancas no meio do guidão pra mudar as marchas e que eu era “proibido de mexer”; um boné que ele usava e que era igual ao do Bezerra da Silva; calças boca de sino e camisas de gola pontuda em cores vivas, quase sempre cheirando a um bom baseado; uma vitrola potente e uma coleção de discos de vinis de samba e samba-rock que hoje fariam a inveja de qualquer um que goste de boa música. Isso era no tempo dos bambas, e eu via e conhecia os bambas (meu padrinho, meus tios e os amigos dos meus tios aqui da rua que nos bailinhos de sábado a noite davam um show de rodopios suingados ao som de samba-rock).
Mas era um certo disco da coleção de meu padrinho que mais me fascinava. Na capa desse disco tinha uma meia-dúzia de caras fantasiados de heróis, cada um com um instrumento de percussão: Zorro, Sargento Garcia, Mandrake, Príncipe Lothar, Fantasma, Tarzan. Todos negros e sorridentes. E o que mais me chamava a atenção era que quem estava de Tarzan era ninguém menos que o Mussum, o mais engraçado dos Trapalhões.
Sim, Mussum, cacildis!! Eram Os Originais do Samba e o álbum chamava-se Aniversário do Tarzan. Eu vivia pedindo para meu padrinho por o disco na vitrola para eu ouvir, e desse modo faixas como Meu Vestibular, Olha o Padilha, Maria Vai Ver Quem É, Pedi ao Céu e Desabrigo, ficaram para sempre como a trilha daquele quartinho e do fascínio daquele disco com a capa tão engraçada. Mas era a faixa-título que eu mais tocava e voltava a ela várias vezes (sempre sob o olhar atento do meu padrinho, quando eu levantava o braço da vitrola com cuidado para não arranhar o disco, nem danificar a agulha).
Eu poderia dizer que aqueles eram tempos melhores, que o sol tinha um brilho diferente, que a minha inocência deixava a vida divertida, que eu era mais feliz. Mas sei que isso é um efeito ludibriante da memória e da dimensão mágica que tendemos a atribuir a ela. Mas até hoje volto um pouco a essa infância no meio dos bambas, da boa malandragem aqui do Jardim Brasil, quando ouço esse samba, entre tantos outros.
Agora ouçam e vejam abaixo Aniversário do Tarzan, vejam a “tosquera” do “clip” feito para o Fantástico em 1978 e digam qual criança de 7 ou 8 anos não ficaria fascinada por uma música como aquela:
Li em algum lugar (não me lembro onde agora) que um site estava perguntando aos leitores quais eram, na opinião deles, os personagens da literatura de ficção mais conhecidos no mundo. Entre Sherlock Holmes, D. Quixote, James Bond, Harry Potter e Hamlet, algum iluminado matou a charada: Deus.
P.S.: Onde no texto se lê "sem gatinhas", leia-se "em gatinhas", expressão mais comum entre os lusitanos, que significa imberbe, muito jovem, engatinhando.
Acabo de ver Pierrot Le Fou, de Jean-Luc Godard. Aqui no Brasil, por motivos que ainda não descobri (e quando descobrir vou atrás dos responsáveis numa vingança sanguinária até as últimas consequências, porque nada justifica um título tão esdrúxulo, tão estúpido e, acima de tudo, tão sem sentido) recebeu o título de O Demônio das Onze Horas. Não vou me estender. Na verdade quero ser breve. Fato: o filme não é genial. Não me venham os intelectualóides empertigados de simbolismos a deificarem a Nouvelle Vague acima de qualquer coisa, porque falar difícil eu também sei. Nesse filme, Godard apenas costura retalhos de uma trama entre retalhos de literatura com críticas e referências à futilidade, superficialidade e banalidade da guerra, do imperialismo, da sociedade de consumo e do cinema americano. Discurso comum na época e até muito relevante, mas que trás, ao menos na minha pouca paciência, o ranço de uma rebeldia ingênua, adolescente, muito mais viril que cerebral. Note: não descambo Godard, nem Pierrot Le Fou e jamais a Nouvelle Vague. O filme é bom, atravessado pra burro, pra dizer o mínimo, mas bom. Dentro da estética de Godard um dos grandes (mas longe de ser meu favorito), cumpre seu papel. Mas daí a dizer que é genial vai um longo caminho.
Dando uma faxina nos links do blog - apagando alguns, renovando outros - fui parar no CrissMyAss. Fazia algum tempo que acessava. Continua ótimo, engraçado e agudo. Não resisti, e roubei a piada abaixo. Recomendo o blog, sempre.
Em A Janela, o argentino Carlos Sorin solidifica o tempo numa ampulheta sem urgência. Logo nos primeiros planos temos a tônica do que será o filme, um lento gotejar do tempo e uma melancólica despedida da vida.
A janela do quarto de Antonio está entreaberta, deixando passar uma luz difusa, e o tiquetaquear dos relógios nos dão a impressão de que não é a luz que entra, mas o tempo que sai pela abertura da janela. Antonio apenas contempla, quieto, esse tempo quase sólido que se escoa. Impotente quanto ao destino, sabe que é seu o tempo que está partindo.
Antonio é um homem doente, alquebrado. Escritor que passa seus dias na cama, no casarão de sua fazenda. Espera a chagada do filho com quem não fala há anos, e ao despertar no dia dessa tão esperada visita recorda-se de um sonho raro que teve. Sorin não disfarça sua referência a Morangos Silvestres, um dos maiores clássicos de Ingmar Bergman. Porém, tampouco se entrega a qualquer mimetismo barato do mestre sueco. Entre A Janela e Morangos Silvestres, as semelhanças são tênues e o filme de Sorin segue por suas próprias pernas.
A Janela é um filme minimalista. Não há ação e a espera é preenchida pela rotina de remédios, das duas enfermeiras, da visita do médico e a expectativa da chegada do filho. Mas há outros elementos substanciais presentes na narrativa, como o afinador de piano, cuja presença nos possibilita um olhar de fora e que enche a casa com as notas musicais que formam uma trilha inconstante. E há a epifania de liberdade experimentada no campo com sabor de fuga.
Uma epifania que se revela o oposto do quarto, onde o tempo é sólido, arenoso e a janela o gargalo de uma ampulheta real. Do lado de fora, sob o imenso céu e o horizonte a perder de vista o tempo não mais existe. Deixa de ser uma medida de fração da vida para se tornar apenas o imenso nada, sem tempo, sem ruídos que não o vento e sem a convicção do fim. Ao não existir o tempo, também não há como existir a morte e tudo parece amplo e simplesmente... amplo.
Mas é o arremate do tempo, dentro do minimalismo desse dia de Antonio, o que faz de A Janela um filme singular. Não por acaso são evocados pelo personagem dois clássicos da literatura latino-americana: A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares e História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges. Enquanto o primeiro explora no fantástico a perpetuação da imagem e dos homens, o segundo cataloga a realidade da vilania dos mesmos. Para Antonio, a perpetuação talvez esteja no encontro como o filho; a vilania, talvez, no passado. Não se sabe. E não há porque saber.
O filme não explora ou busca respostas, nem mesmo dá os indícios de quaisquer perguntas. Preocupa-se mais e desvelar a cru e sem grandes gestos o fim do tempo de Antonio e sua percepção desse fim. Através da janela, por onde se escoa ininterrupto, se vê o imenso azul celeste e verde do campo, depois o crepúsculo de tons impressionantes, por fim a noite. Não há discursos, desespero, despedidas ou gestos sentimentais. No final, até mesmo os sentimentos são minimalistas. Restando somente a recordação de um sonho antigo e o desfecho da vida. -- A Janela (La Ventana) Dir.: Carlos Sorin Argentina/2008 85 min.
No blog as Runners World Brasil, falou-se de um dos grandes temores dos corredores de rua: o cão irlandês. E o que é um cão irlandês? Qualquer cão que não resista ver um corredor passando e logo o ataca. Mesmo que não morda, o infeliz do animal te dá um puta susto, quebra seu ritmo e atrapalha seu treino. Depois disso, pra voltar ao foco da corrida leva tempo e desgaste, que o diga Wanderlei Cordeiro de Lima.
Já sofri duas tentativas de ataque de um vira-lata que circula pela rua onde corro. No que poderia ser o terceiro, fui prevenido. Fui de caminhada até as proximidades onde o idiota do cão ficava e somente ao avistá-lo iniciei um trote, pra chamar sua atenção e fazê-lo vir para o ataque. Preparado e sem o desgaste de meio treino, tive agilidade, força e concentração para desferir-lhe um poderoso chute nas costelas, uma bica, como se diz na gíria, que o lançou a metros de distância, ganindo desgraçadamente como um infeliz moribundo com as costelas quebradas.
Mas isso não aconteceu. O desgraçado deve ter imaginado minhas intenções quando nosso olhar se cruzou e desde então nunca mais se atreveu a sequer rosnar para mim quando passo correndo.
Outro dia vi um guarda insistir com uma senhora que teimava em deixar seu cão solto no parque, mesmo sabendo que ali era norma que os animais ficassem na coleira. “Ah, mas ele é educadinho e treinado”, dizia ela. E eu pensava em perguntar-lhe: “ele limpa a bunda com papel quando caga? Dá descarga? Escova os dentes sozinho? Come com talher? Lê jornal?”. Ora, educado uma ova! Ele é um animal como outro qualquer e deve, como qualquer outro animal, andar na coleira quando estiver fora de casa.
Não tenho nada contra animais domésticos, tampouco a favor. São-me absolutamente indiferentes, todos eles. Só o que me tira do sério são os donos de animais que os tratam como seres humanos ou, pior, como crianças mimadas. Bicho é bicho e gente é gente e não me entra na cabeça uma pessoa achar que um animal tem mais direitos do que um humano.
E que não venham me dizer que os animais não fazem guerra, não têm preconceito, não roubam, nem matam por vingança e todas essas bobagens comparativas entre humanos e bichos que os defensores dos animais expelem por aí. Por favor, não ofendam minha inteligência e utilizem um pouco da que lhes resta.
Quanto a mim, enquanto corredor de rua e ciente dos meus direitos civis de legítima defesa, não hesitarei jamais em desferir uma megatômica bica descadeirante em qualquer infeliz-miserável-perdedor-na-evolução-das-espécies que me venha atacar na rua. Sim, estou no topo da cadeia alimentar, tenho polegar opositor e telencéfalo altamente desenvolvido. As outras espécies que se lasquem, pelo menos enquanto eu estiver correndo.
Em memória aos 15 anos da morte de Airton Senna, uma exposição de fotos e esculturas está em exibição no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.
Nunca babei ovo para o Senna. Curiosamente, no tempo que ele corria eu não me interessava por F1, coisa estranha se comparada com minha paixão atual pela modalidade. Como fã que sou hoje da F1, naturalmente lamento não tê-lo visto correr, mas nada que o Youtube não remedeie.
Contudo, vejo na figura de Senna nada mais que um piloto excepcional, competitivo, talentoso e aguerrido. Em seu tempo foi o melhor e teria facilmente sido o melhor de todos os tempos se tivesse vivido para isso. Mas não viveu.
O que não me entra é essa história de transformá-lo em herói. O que me engasga é um culto exacerbado pela sua figura. Senna não era herói de nada e seu caráter não era superior ao caráter nacional. Para vencer fazia o que era necessário e se fosse necessário um pouco de sujeira, teria feito um pouco de sujeira. Acho ridículo essa mania de brasileiro fabricar heróis para suprir sua baixa auto-estima, para contrabalancear nosso complexo de vira-lata. Possivelmente Airton Senna era, fora das pistas, uma figura de bom caráter, bom amigo, bom sujeito. Mas não mais que o Zé, meu vizinho, não mais que o Abreu do bar da esquina, não mais que D. Maria da barraca de pastel.
Dentro das pistas e como esportista ele era competitivo e feroz como todos os outros e seu talento superior o levou a feitos incríveis, mas nada que o qualifique como herói nacional, no máximo como ídolo do esporte, mesmo assim com ressalvas, pois já fez nas pistas algumas sujeiradas, entre elas chutar um fiscal de pista.
Deixemos de banalizações. Homenageemos o excepcional piloto e esqueçamos essa bobagem de herói. Sejamos menos ridículo e menos patéticos. Obrigado. --
Na exposição há uma escultura do Paulo Solaris, artista plástico que costuma compor obras tendo a F1 como tema. Abaixo a escultura...
... agora reparem no detalhe do capacete...
...pô, parece um capacete feito pro Ajax, o Caçador de Marte... hahahahaha
P.S.: desculpem, piada de nerds. Se você nunca foi chegado em HQs não vai achar muita graça.
Agora também integrando o Comtatos, onde escreverei sobre (surpresa!) cinema. As idéias do Júnior para o blog são muito interessantes (e ousadas) e espero que dêem (sim, eu sei que esse dêem não tem mais acento, mas estou cagando para a nova norma ortográfica) certo. Na reunião que fizemos segunda passada no mexicanozinho da Augusta, fiquei contente em rever e conhecer pessoalmente pessoas de que gosto muito, seja pelo que escrevem, seja pelo que pensam e como pensam. Num mundo onde, como disse Luis Fernando Veríssimo (e eu repito isso há mais de 6 anos), a inteligência parece ser a suprema pornografia do nosso tempo, estar entre esses “indecentes e pornógrafos” me dá uma grande satisfação.
E já estreei falando sobre Platoon, de Oliver Stone. Para ler, clique aqui.
Depois da minha crítica abaixo corro o risco de receber pedradas e galhofas. Adianto-me e explico-me:
Contra as pedradas:
Não sou homofóbico. Defendo inteiramente o direito ao casamento gay e inclusive a adoção de crianças por esses casais. Não creio que a homossexualidade seja uma anomalia de qualquer espécie e acho que a Igreja Católica e suas posições, bem como o preconceito baseado na triste ignorância, são a única anomalia repugnante presente na sociedade atual. Tenho amigos gays, alguns até que ainda não sabem que são gay. Mas sou hetero. Por isso, cenas de beijo entre homens no cinema ou ao vivo sempre me causam desconforto, não por preconceito, mas por empatia, pois para apreciar um filme preciso me identificar com os personagens e a idéia de minha boca na de outro homem não me é em nada agradável. Ponto final.
Contra Galhofas:
Aos machões amigos meus digo e reafirmo: sim, em Canções de Amor, pela primeira vez, não fiquei desconfortável com um beijo entre dois homens. Não vou me gastar aqui explicando que para isso contribuiu o jogo de cena, a canção, os atores e o filme como um todo. Não devo nada a ninguém (pelo menos não como pessoas físicas, como jurídicas já é outra história, pois como diz o Serjones: queria dar um tiro no cu de quem inventou SERASA e SPC, mas isso é outra história), nem tenho qualquer insegurança quando à minha masculinidade. Agora, você que deu um risinho maroto e debochado quando leu aquilo, já pensando em cair de piadinha, não será você um dos que é e ainda não sabe?
“Não me ame muito, mas me ame por muito tempo”, foi a frase que a Fernanda me ressaltou quando discutíamos o filme Canções de Amor, que acabáramos de ver. O premiado filme do francês Christophe Honoré, um dos grandes nomes da nova geração do cinema francês, se divide em três partes: a perda, a ausência e o regresso. A soma destas três partes desenvolve na tela as relações de como lidar com a perda e seguir adiante com o recomeço. Mas Honoré foge de qualquer simplificação ou sentimentalismo barato e acentua a complexidade das relações com triângulos amorosos e a liberdade sexual.
O filme é um musical e apenas isso já pode ser suficiente para que muitos torçam o nariz e nem queiram vê-lo. Preconceito puro, do qual não me excluo. É verdade que os musicais compõem um gênero que desagrada a muitos, que não conseguem “entrar” na trama justamente pelo artificialismo que a inserção de canções causa no filme. Pior ainda se o filme for uma ópera ou opereta, todo cantado, como o visualmente impecável La Boheme, de Robert Dornhelm, ou o deliciosamente divertido Beijo na Boca, Não, de Alain Resnais.
Canções de Amor não foge do gênero, mas se destaca por qualidades que, acredito, podem vencer a resistência dos mais empedernidos ao gênero. Assim, as canções não “atravessam” o ritmo da narrativa e a complementam com um encaixe azeitado e uma poesia sensível e criativa. Os arranjos também são elaborados e o conjunto das canções desenha a história com belíssima delicadeza; e essa bela delicadeza me arrebatou a um ponto inesperado, fazendo-me, pela primeira vez, ver beleza num beijo homossexual masculino num filme.
Louis Garrel interpreta Ismaël, um jovem jornalista que namora Julie (Ludivine Sagnier), que acrescenta à cama deles Jeanne (Chiara Mastroianni), num aberto triângulo amoroso. Mas a relação entre Ismaël e Julie é turbulenta, ora pelo ciúme, ora pelas incertezas de sentimentos. Aqui, o amor ganha os contornos das relações existencialistas, conturbadas e discutidas sob a luz do intelecto. Mas Honoré não se entrega à uma monótona e monocórdia tese, ou a debates soporíferos sobre o ser e o nada. Não deixa, contudo, de homenagear a Nouvelle Vague de Truffaut e Godard, com um plano marcante do revolucionário e renovador movimento do cinema francês dos anos 60: um plano frontal dos personagens na cama, cada um lendo um livro diferente.
Mas então acontece a perda.
Na segunda parte - a ausência - vivenciamos entre as canções a difícil adaptação e o árido recomeço. A ausência em questão cria nos personagens o sentimento de desencaixe e a busca, sem muito rigor ou objetividade, de algum tipo de conforto. Mas todos se mostram perdidos, patinando em um limbo viscoso, queimando lentamente suas dores e suas ausências próprias, cada um tocado e compungido à sua maneira frente à ausência.
É quando surge Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet), e sua insistente devoção ao amor. Disposto até o cansaço para conquistar quem ama, irá conduzir aquele que se perdeu na ausência para o caminho do regresso, ainda que por vias nunca antes caminhadas. É justamente por essa inversão inesperada que se dá a beleza do filme, que com as canções de amor, mostra que as transposições de sentimentos são todas justificadas pela beleza do gesto.
Christophe Honoré mostra um talento extraordinário naquilo que o filme mais se destaca, o jogo de cena (que meus coleguinhas instruídos chamam de mise-en-scene). Para um filme feito de canções, nada mais complementar para as músicas do que este jogo de cena. E nisso o filme se mostra pródigo. A beleza das letras, das composições e da história se completam com o jogo de cena, construindo assim uma expressividade que está além das palavras, mas se encerra delicadamente em cada gesto. E não se pode deixar de falar de Paris, que o diretor enquadra sob uma perspectiva de solidão, com uma textura refinada de tristeza e desamparo, mas cuja beleza nos salva de qualquer desespero.
Canções de Amor venceu e derrubou todos meus preconceitos: musical e homofóbico; e entregou-me uma experiência de cinema que me arrebatou abertamente. Porque como muito bem captou a Fernanda, não importa que se ame muito, mas que se ame por muito tempo. -- Canções de Amor (Lês Chansons D’Amour) Dir. Christophe Honoré 2007/FRA 100 min.
Se você já se despiu de medievais preconceitos, abaixo um trecho do filme. Não a cena do beijo, que você pode ver clicando aqui, mas a minha canção preferida do filme (aviso, assista só até os 2:10 minutos e se poupe de um discurso tolo de quem postou o vídeo:
O ator australiano Hugh Jackman, que interpreta o personagem Wolverine na série de filmes X-Men, foi ver o treinamento do Corinthians. Além de invicto, o Timão é pop. E não poderia haver mais feliz coincidência entre o caráter alvi-negro e o personagem de Jackman, que é um personagem, literalmente, de garra.
Ontem, na reunião do Comtatos, me justifiquei, um tanto esquivo, por estar fugindo do cinemão hollywoodiano. Equação simples: pouco ou nenhum dinheiro para ver filmes, portanto, escolho muito bem o que vou ver, procurando dirimir as chances de ver algo ruim ou banal, procurando ver algo que me acrescente.
Hoje cedo, pouco antes de correr, dou uma lida em mais uma crítica de Antonio Moniz Vianna, no livro Um Filme por Dia, e leio o crítico se referindo a um bom punhado de diretores nos seguintes termos: “o que são, senão os capatazes dóceis de uma indústria tantas vezes igual às que produzem sabonetes ou refrigerantes?”. E isso em 1958. Nada a acrescentar.
Pouco importa o bem-estar, a saúde, o prazer, o ganho estético e demais guéri-guéris. A melhor coisa de correr é poder cair nas massas sem culpa (para certas distâncias de treino é até obrigatório sua ingestão). Nesse feriado castiguei sem dó e não ganhei nem 100gr a mais na balança. Às vezes a vida é boa.
O Estranho de Como As Coisas Nos Ficam (ou, De Como Se Exibir sem Parecer Estar Se Exibindo)
Quem vê muito filme ou lê muito livro já deve ter um ou dois exemplos. A memória que nos ficam de certas obras algumas vezes estão mais ligadas a elementos externos e alheios à obra do que propriamente sua essência. Comigo não é diferente. A primeira vez que vi Os Bons Companheiros, umas das grandes obras de Martin Scorsese, foi numa noite em que tinha acabado de tomar um doloroso pé-na-bunda e peguei o filme na locadora pra não pensar muito na dor de cotovelo e na fossa monumental que se imiscuía na minha alma já tão propensa ao negrume. Assim, para sempre este filme, não importando quantas vezes o reveja, terá sempre um pouco daquele amargor desconsolado de homem ferido pelo amor rompido, ainda que nada tenha o filme disso, já que é um filme sobre gangsters.
Hoje comecei a reler um livro que tem também em minha memória um aspecto diferente, pelo qual guardo a lembrança de uma experiência nova, inusitada, e tão inesquecível quanto importante para mim. Toda essa aura que o envolve em minha lembrança se dá simplesmente porque enquanto o lia tinha muitas vezes a impressão de não estar entendendo muita coisa. Na verdade, muito mais a impressão de que algo estava se perdendo no caminho, como se somente fragmentos mais ou menos longos do texto estavam sendo assimilados. Por isso, cada um dos 12 contos que o compõem estão na minha memória como uma espécie de nebulosa lembrança imprecisa, completos mas imperfeitos.
Em agosto de 2005, Fernanda, hoje minha digníssima namorada, me incentivou a ler um livro em espanhol. Ela, que tão bem domina o idioma, sempre dizia que não era tão difícil e que um cara como eu, metido a aprender as coisas sozinho, facilmente pegaria o jeito da língua sem precisar de nenhuma aula. Incumbiu-me então de atravessar as 12 histórias de Doce Cuentos Peregrinos, de Gabriel García Marquéz, autor que nunca tinha lido antes, acrescente-se. Hesitei, num primeiro momento. Contudo, a idéia de, em caso de sucesso, poder me exibir por aí, acrescentando à lista de coisas que aprendi sozinho (informática, cinema, literatura, economia, marketing, poker, amarrar os sapatos, programar o videocassete, consertar chuveiro, falar inglês pra inglês ver, mexer as orelhas e fazer miojo [esses dois últimos não ao mesmo tempo, lógico]) o idioma espanhol, foi tentador demais para o meu orgulho de desclassificado nos vestibulares da vida.
E não é que deu certo? Claro que não domino o idioma, mas já me orgulho de ler qualquer livro escrito nesse idioma direto no original, sem precisar de tradutores. E a verdade é que nunca esquecerei e sempre guardarei na memória a aura de estranheza e desconforto inicial que a leitura daqueles doze contos me causaram. Revê-loas agora, com a clareza nítida de quem não mais vacila em despacio, aunque, parranda, borracho pareja, empezar e conejo (este último que num conto fantástico de Cortázar me deu tanta dor de cabeça, afinal, como acreditar no que traduzia minha mente quando lia: “Cuando siento que voy a vomitar un conejito me pongo dos dedos en la boca como una pinza abierta, y espero a sentir en la garganta la pelusa tibia que sube como una efervescencia de sal de frutas. Todo es veloz e higiénico, transcurre en un brevísimo instante. Saco los dedos de la boca, y en ellos traigo sujeto por las orejas a un conejito blanco.” Porra!!! O cara realmente vomitava coelhinhos!!!!)
Enfim, retomo com prazer los doce cuentos, e espero agora ter deles uma mais clara noção de tempo e especo, mas sem nunca esquecer a primeira impressão que me causaram, que está deliciosamente preservada na minha memória. -- P.S.: se a alguém interessar, o conto do Cortázar a que me referi chama-se Carta a Una Señorita en París e compõe os contos do livro Bestiário.
Aos feridos nas derrotas, minhas condolências; porque nós, que só de bravos fazemos pasto, não a conhecemos neste campeonato. Chorem tristes os que duvidam do retorno e da grandeza do Todo-Poderoso: Campeão invicto Paulista 2009.
Mais uma vez Fernanda e eu cruzamos a madrugada e o centro histórico da cidade na Virada Cultural desse ano. Destemida essa minha namorada, que aturou o frio da noite e chegou ao fim da nossa via até com mais disposição do que eu. Abaixo, amostras.
Palco da Dança: Balé da Cidade de São Paulo
Divertida apresentação da companhia francesa Tango Sumo com a performance Expédition Paddock, na qual os artistas desenvolvem coreografias acrobáticas em um dormitório imaginário.
Uma antiga canção definiu: Não é de mar, não é de sol/São Paulo é linda de lua.
Eu quero é ver o povo na rua. Depois de ver um excepcional filme de Christophe Honoré (Les Chansons D'Amour), um passeio pelas ruas tomadas na madrugada.
É chover no molhado, porque se lerá o mesmo em qualquer blog ou site que trate do assunto. Mas ao se iniciar uma atividade física como a corrida de rua e levá-la a sério, e ver a superação gradual de limites que antes pareciam tão distantes é algo cujo prazer e sensação não se pode descrever. Hoje, pela primeira vez, superei a distância de 10 km correndo. Sem dúvida é pouco, se levarmos em consideração os 42,195 km de uma maratona. Mas ao olhar para trás e ver-me ofegante e exausto após 500 metros no primeiro dia de treino e lembrar a sensação de que conseguir correr 1 km seria algo tão difícil; como não me sentir bem hoje, 11 semanas depois, ao conseguir cumprir minha meta inicial sem me sentir exausto, nem mesmo muito cansado? Como não sentir o prazer da superação ao romper uma barreira, ainda que curta, e de obter os resultados buscados, como estar 10 kg mais magro sem precisar abrir mão da cerveja com os amigos, da massa de domingo, da pizza de sábado e da esfiha de sexta?
Sim, tudo é efêmero e vão se posso morrer amanhã de um aneurisma ou atropelado na calçada ou baleado numa esquina e morrer cheio de saúde e disposição. Mas enquanto não, vou correndo e saboreando o gosto da superação, não mais apenas pela forma estética, mas pelo conteúdo do todo e pelo simples prazer de seguir adiante, enquanto houver adiante. -- P.S.: E como não considerar o vídeo abaixo um dos que mais me dizem algo hoje?
Dia desses, ao tentar explicar as vantagens da corrida como prática esportiva para a Bruxa do Mar, o Nêmesis, seu esposo há 5 anos e desafeto meu há 23 anos, disse pra ela não me dar ouvidos, porque eu era e me comportava como um recém-convertido. Gostei da analogia, porque não deixava de ser verdade e fiquei com a expressão na cabeça. Como por um bom texto eu perco o amigo mas não perco a idéia...
Venho aqui diante desta congregação de fiéis leitores para dar o testemunho da glória e louvar a obra que se fez em minha vida quando aceitei a Corrida em meu coração.
Eu vivia entregue ao vício e ao pecado. O vício do sedentarismo e o pecado da preguiça. Levava uma vida desregrada. Meu corpo e minha alma pertenciam ao demônio do sofá e ao inimigo do controle remoto. Também estava entregue à sedição e à tentação das frituras, das gorduras e do chocolate. Era um desencaminhado na vida e não percebia que estava entregue à banha do tinhoso, ao colesterol de lúcifer, à barriga do demônio, ao corpo disforme dos infernos.
Não queria ver o óbvio, ver minhas banhas grotescas caírem por sobre o cinto de segurança ao dirigir; ou notar como subir uma escada era ofegante, ou perceber como o ar me faltava no simples gesto de amarrar um sapato. Estava cego e surdo aos apelos dos amigos e da família que queriam me tirar daquela vida. Estava me encaminhando para a perdição total de obesidade mórbida, estava indo por um caminho do qual poucos voltavam.
Mas um dia a força de sua obra agiu na minha vida e eu tive a revelação da verdade através do instrumento de sua vontade: a balança. E vi o que não queria ver: 92 kg.
Sim, meu irmãos: no-ven-ta e do-is qui-los!!! Foi aí que entrou em minha vida o sopro da verdade e eu quis buscar a salvação.
Então resolvi mudar de vida e aceitar em meu coração a verdade que liberta, a verdade que salva e que nos leva ao caminho do bem, da retidão, da virtude e da glória da obra da redenção.
Tirei o sedentarismo da minha vida e busquei a salvação da salada e da refeição correta e equilibrada. Mas a maior transformação na minha vida foi Ela quem fez.
Quando comecei não fui além de 500 metros. Os 500 metros mais longos da minha vida. Achei que fosse morrer. Sentia que estava me afogando em oxigênio porque por mais que eu inspirasse não era o suficiente. Mas não desisti, irmãos. Porque sabia que Ela estava preparando uma obra na minha vida, porque sabia que Ela não me abandonaria se eu não A abandonasse. E lutei, meus irmãos. Lutei contra o próprio satanás na forma de ácido lático, na forma de dor no tendão tibial posterior, na forma de contração das vias respiratórias. Busquei alívio e força na compressa de gelo e nos alongamentos com a perseverança de quem busca a luz e o caminho da salvação.
Sim, meus irmãos. Eu aceitei a Corrida no meu coração. Aceitei a Corrida como minha única salvadora e redentora e louvo à sua glória e à transformação que ela operou na minha vida. Hoje sou um novo homem. Hoje pela primeira vez consegui a marca de 10 km e não houve luta, porque Ela estava comigo. E não houve dor, nem lesão, nem cansaço, nem falta de ar. E corri os 10 km tranqüilo e com paz no coração, nos tendões, no joelho e no músculo adutor.
Sim, meus irmãos. Hoje sou um novo homem. 10 kg mais magro, 15 cm menos de barriga e fôlego pra 10 km de corrida. E posso dizer que a Corrida operou um milagre em minha vida e me deu a esperança e a luz e a alegria da endorfina e da dopamina que faltava em minha vida. Aleluia!!!! Irmãos!!! Aleluia!!! Corremos, irmãos. Corremos em seu louvor. E tenhamos fé, quilometro a quilometro, que ela não nos abandonará. Corremos, irmãos... corremos. Aleluia!!!
O Guia da Semana, site de divulgação e conteúdo cultural, publica essa semana uma crônica minha sobre Billy Wilder e o filme Crepúsculo dos Deuses. Provavelmente uma semana a cada mes haverá lá um texto meu sobre cinema. Para ler o texto dessa semana, clique aqui.
Sinto uma imensa saudade de mim, pelo tanto que achei que seria quando tudo que sou nunca cheguei a ser
Não trago na saudade qualquer mágoa da vida, que dela fazemos o que dela fazemos tenho apenas nessa constante saudade a ausência daquilo que sou dentro daquilo que nunca fui
São as saudades dos sonhos que ficaram dispersos ao longo da estrada
Foram eles as migalhas do meu alforje de propósitos, furado muito cedo pela mocidade estúpida - como são estúpidas todas as mocidades -, esvaído lentamente por trás de mim quando caminhava sem ver o que se perdia pelo caminho
Olhei demais para céus e nuvens; perdi-me da estrada
Muito tarde, dei conta da noite que se avizinhava e não encontrei mais abrigo de dormir nem sono de sonhar
Perdera no caminho metade de mim, vazante de um alforje furado como não deveriam ser os sonhos da mocidade
Sem tristeza ou alegria deitei-me na relva rala da beira do caminho e sonhei novamente as saudades que tinha de mim e fui feliz nos sonhos sonhados como se não fosse eu quem os tivesse perdido -- Rogério de Moraes 13/03/2009
Vi ontem o tal vídeo da Susan Boyle no Youtube. Hoje li tudo que encontrei a respeito. Se você não sabe do que estou falando abra uma aba no seu navegador, entre no Google ou no Youtube, dê um CTR+C/CRT+V no nome e vê o que aparece, porque hoje não estou com paciência para explicar.
Particularmente duvido que aquilo não tenha sido produzido e preparado para o programa. Acho pouco provável que no Reino Unido um talento como (aparentemente) tem Susan Boyle ficasse oculto por tanto tempo e, mais improvável ainda, só fosse revelado num programa como aquele. Na TV, no cinema e na música existe uma coisa chamada Produtor e a função dele é basicamente “fabricar” sucesso, quase sempre independente da qualidade desse “sucesso”. Duvido de tudo que vejo na TV e não estou aqui escrevendo isso para dirimir o talento (caso seja real) da senhora de 47 anos, nem sua história (caso seja real) de vida.
Mas o mais irritante são as pessoas que não enxergam a hipocrisia de si mesmas e o cinismo de uma atitude tão previsível quanto falsa. Diante do fato de Susan Boyle ser feia, desajeitada e (caso seja real) virgem até de beijo na boca; diante do fato de que o primeiro impulso de todos ao vê-la foi de ridicularizá-la e duvidar de qualquer possibilidade de talento; diante do fato de ao cantar ela ter se mostrado (caso seja real) uma extraordinária cantora, as pessoas começam a regurgitar os velhos chavões ridículos e óbvios: não pré-conceitue um individuo, não faça julgamentos baseado na aparência, não julgue um livro pela capa, etc, etc, etc.
Além da obviedade que o episódio (caso seja real) em si transmite e que por si só torna desnecessário qualquer comentário ou demonstração de sabedoria de almanaque, essas pessoas que de repente se mostram tão subitamente “despertas” para a verdade filosófica do não pré-conceitue, dentro de suas medíocres obtusidades hipócritas não percebem ou não querem admitir que em nada esse episódio mudará suas atitudes diante das pessoas. Todas elas, assim como eu e você, caro leitor, com ou sem Susan Boyle, continuaremos a ridicularizar aqueles que não se enquadram no nosso conceito de bonito, de elegante, de belo. Continuaremos todos pré-julgando as pessoas e duvidando de suas capacidades (quase sempre simplesmente porque não a temos em nós) e rindo dos ridículos e de aparência tola.
Porque somos, essencialmente, preconceituosos e não vamos mudar isso por causa de um programa de TV ou fenômeno do Youtube. E por isso precisamos ver com mais clareza e abrir mão dessa hipocrisia nojenta como se tivéssemos aprendido uma lição valiosa que levaremos para toda vida. E, principalmente, poupar os ouvidos alheios de frases feitas, porque nada mais intolerável do que arrotar sabedoria com clichês velhos e apagados.
"Mas esse é apenas um dos atrativos desse duelo duplo entre Corinthians e Santos. Durante a semana vai se falar muito sobre a tradição desse clássico. Serão citados jogos antológicos, o tabu, a quebra do tabu, fases de supremacia de um e de outro, as goleadas, as decisões, Pelé e Rivellino, etc. É assim mesmo. A história deve ser evocada – que não seja por outro motivo para lembrar às novas gerações de que a vida não começou ontem e outras, antes delas, já viveram, sonharam, sofreram e se alegraram. Se chamamos clássico a um encontro entre grandes é porque ele tem um enorme passado atrás de si."
Trecho da crônica esportiva de Luiz Zanin em O Estado de São Paulo. Impecável.
Li A Metamorfose, de Franz Kafka, pela primeira vez há uns 6 ou 7 anos. Naturalmente o livro me impressionou muito, tanto que o reli ano passado e atesto que continua me impressionando. Parafraseando um velho poeta, digo de A Metamorfose o mesmo que digo de Cem Anos de Solidão e de mais um punhado de livros cujos títulos não caberiam aqui: quem passou pela vida e não os leu, foi espectro de homem mas não foi homem, passou pela vida, não a viveu .
Mas voltando ao Kafka e sua Metamorfose. No blog literário TodoProsa, do Sérgio Rodrigues, surgiu um post que pode abalar o modo como o livro de Kafka adentrou e permaneceu no imaginário literário. Afinal, Gregor Samsa, ao acordar naquela manhã, se viu tranformado numa barata ou num besouro? Clique aqui e acompanhe a investigação do Sérgio sobre o assunto.